Como ler o informe mensal de um FIDC: PDD, atraso por faixa, recompras, e o que ele revela sobre o originador
Todo mês, o administrador de cada FIDC entrega à CVM um formulário padronizado com a carteira, o atraso, a provisão e os negócios feitos com direitos creditórios. O documento é público. Quem pensa em estruturar um fundo para a própria cadeia deveria lê-lo por dois motivos: é por ele que investidores acompanham fundos parecidos com o que a indústria quer montar, e é por ele que o fundo da indústria será acompanhado depois do primeiro aporte.
A obrigação está no art. 27, III, do Anexo Normativo II da Resolução CVM 175/2022: o administrador encaminha o informe mensal à CVM, conforme o modelo do Suplemento G, em até 15 dias após o fim do mês. Os dados ficam disponíveis, tabela a tabela, no Portal de Dados Abertos da CVM.
O formulário não traz narrativa. São números, e os sinais sobre o originador aparecem quando se cruzam tabelas e meses. A seguir, o mapa das tabelas, as três leituras que mais revelam e um informe hipotético lido do começo ao fim.
O mapa das tabelas
O informe é preenchido por classe de cotas e segue a numeração do Suplemento G. Nem todas as tabelas pesam igual para quem avalia originação.
| 0 1 O que mostra | 0 2 Pergunta que responde | |
|---|---|---|
| I · Ativo | Carteira separada em a vencer adimplente, a vencer com parcelas inadimplentes e inadimplente; provisão para redução no valor de recuperação; maiores cedentes e sua participação | Quanto da carteira já deu problema e quanto foi provisionado |
| II · Segmento | Carteira por setor: industrial, comercial, serviços, agronegócio, financeiro e outros | Com que fundos este se compara |
| IV · PL | Patrimônio líquido e patrimônio médio | Denominador de todos os índices |
| V e VI · Comportamento | Prazo a vencer, parcelas vencidas e não pagas por faixa (de 1 a 30 dias até acima de 1.080) e pagos antecipadamente, com e sem aquisição substancial dos riscos | Como o atraso se distribui e para onde migra |
| VII · Negócios do mês | Aquisições, alienações ao cedente, a prestadores e a terceiros, substituições e recompras | Quanto do risco volta para o originador |
| VIII · Devedores | Valor devido pelos 25 maiores sacados | Concentração |
| X · Cotas | Cotistas, quantidade e valor das cotas por subclasse, rentabilidade, captações, resgates e amortizações, liquidez, desempenho esperado e realizado | Tamanho da subordinada e quem está saindo do fundo |
Quadro conceitual autoral a partir do Suplemento G da Resolução CVM 175/2022 e do dicionário de dados do Portal de Dados Abertos da CVM.
O índice de subordinação não aparece como campo pronto. Calcula-se com a tabela X: quantidade de cotas vezes valor da cota de cada subclasse subordinada, dividido pelo patrimônio líquido. É uma conta de minutos, e é a que mostra quanto de folga resta até o piso previsto no regulamento, que por força do art. 20, II, do Anexo II também precisa dizer o que acontece se o índice for descumprido.
Atraso por faixa: a migração importa mais que o total
O total vencido de um mês diz pouco. O que revela a qualidade da originação é a migração: o valor que estava na faixa de 1 a 30 dias num mês e reaparece na de 31 a 60 no mês seguinte. Se quase tudo o que atrasa até 30 dias é pago antes de chegar a 60, o atraso é operacional, de cliente que paga fora da data. Se a maior parte rola de faixa em faixa, o atraso é de crédito, e a provisão virá atrás.
Essa leitura exige três ou quatro meses seguidos, lado a lado. Um fundo com total vencido estável pode esconder uma carteira que se deteriora: menos atraso novo nas faixas curtas e mais valor acumulado acima de 90 dias. A soma não muda; a composição, sim.
Provisão: compare com as faixas, não com o patrimônio
A mecânica da provisão e o efeito dela sobre a subordinada já foram tratados no post sobre como a cota é marcada. Para ler o informe, basta uma razão: a provisão para redução no valor de recuperação, que é a PDD do fundo, dividida pelas parcelas vencidas há mais de 90 dias. Não existe número certo para ela, porque depende da régua do fundo e das garantias. Existe direção certa. Se o atraso longo cresce três meses seguidos e a provisão fica parada ou cai, ou a régua é frouxa, ou houve recuperação que o informe não explica. No primeiro caso, a subordinada está marcada acima do que a carteira sustenta; no segundo, falta uma explicação que o investidor vai pedir.
Recompras e substituições: o termômetro do originador
A tabela VII registra quanto o fundo comprou no mês e quanto devolveu ao cedente por recompra ou trocou por outro título na substituição. As duas operações têm usos legítimos, como corrigir título que descumpriu critério de elegibilidade ou apresentou vício de formalização. O problema é quando viram rotina de limpeza de atraso: o título vencido sai do fundo antes de chegar às faixas longas, e o informe mostra uma inadimplência que não corresponde ao risco da carteira. Na prática, o risco voltou para o balanço do originador, como uma coobrigação que o blog já analisou em post próprio.
Fonte: CVM — Portal de Dados Abertos, Informe Mensal de FIDC, competência jul/2026, tabela VII (aquisições, substituições e recompras), classes com aquisições no mês; faixas e percentuais calculados a partir dos valores informados — https://dados.cvm.gov.br/dataset/fidc-doc-inf_mensal (valores aproximados).
No agregado de julho de 2026, recompras e substituições somaram 1,5% das aquisições. A média esconde a cauda: 128 classes devolveram ou trocaram mais de 10% do que compraram no mês, e 45 passaram de 25%. Um mês isolado não condena ninguém, porque a recompra pode se referir a compras anteriores e o fundo pode ter reduzido aquisições. O sinal é a série: a razão subindo mês a mês, com o atraso longo estável ou em queda.
O exemplo: três meses de um informe hipotético
Um FIDC de duplicatas industriais tem regulamento com índice mínimo de subordinação de 13%. Os três últimos informes trazem, em milhões de reais:
| M 1 Mês 1 | M 2 Mês 2 | M 3 Mês 3 | |
|---|---|---|---|
| Patrimônio líquido | 100,0 | 101,0 | 100,0 |
| Aquisições | 40,0 | 42,0 | 38,0 |
| Recompras | 0,4 (1,0%) | 1,5 (3,6%) | 3,4 (8,9%) |
| Parcelas vencidas | 3,0 | 3,1 | 3,0 |
| Vencidas há mais de 90 dias | 0,8 | 1,4 | 2,1 |
| Provisão | 1,2 (150%) | 1,2 (86%) | 1,1 (52%) |
| Subordinada | 15,0 (15,0%) | 15,1 (15,0%) | 15,0 (15,0%) |
Exemplo ilustrativo com valores hipotéticos. Recompras em percentual das aquisições; provisão em percentual das parcelas vencidas há mais de 90 dias; subordinada em percentual do patrimônio líquido.
Lido linha a linha, o fundo parece estável: vencido em R$ 3 milhões e subordinação de 15%, com folga sobre o piso. Cruzado, conta outra história. O atraso recente some porque o cedente recompra, e a recompra saltou de 1,0% para 8,9% das aquisições. O atraso antigo, que ninguém recomprou, subiu de 0,8 para 2,1, enquanto a provisão caiu e a cobertura foi de 150% a 52%.
Agora refaça a subordinação com dois ajustes de analista conservador. Provisão cobrindo todo o vencido acima de 90 dias: 2,1 − 1,1 = 1,0 a mais. Recompras dos três meses, 0,4 + 1,5 + 3,4 = 5,3, tratadas como atraso e provisionadas a 30%: 1,6. A subordinada passa a 15,0 − 2,6 = 12,4 sobre patrimônio de 100,0 − 2,6 = 97,4. O índice fica em 12,7%, abaixo do piso de 13%. O informe mostra um fundo enquadrado; a leitura mostra um fundo que depende do caixa do originador para continuar enquadrado.
O que fazer com isso
Leia fundos comparáveis antes de estruturar o seu. Filtre no portal as classes com carteira concentrada no segmento industrial ou comercial e monte a série de atraso por faixa, provisão e recompras de doze meses. É o padrão contra o qual o investidor vai comparar a sua carteira.
Monte a sua planilha de leitura com as razões, não com os totais. Migração entre faixas, provisão sobre vencido acima de 90 dias, recompras e substituições sobre aquisições e subordinação calculada pela tabela X, mês a mês.
Trate a recompra como consumo de caixa da indústria. Se o seu fundo precisar recomprar para manter o atraso baixo, o informe vai mostrar a série, e o investidor vai refazer a conta do exemplo.
O informe mensal registra o que o originador fez com a carteira no mês; quem aprende a cruzar as tabelas passa a ver o que ele fará no trimestre seguinte.
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